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"A tragédia está tão presente quanto no dia em que a barragem estourou"

Após o rompimento da barragem, mais de 50 milhões de metros cúbicos de lama escorreram pela região do Rio Doce (Foto: Agência Brasil)

Logo após tomarem conhecimento do rompimento da Barragem do Fundão, no dia 5 de novembro de 2015, os documentaristas Pedro Serra e Hermano Beaumont se prepararam às pressas para  registrar o maior crime ambiental da história brasileira. Dez dias após o mar de lama transbordar pela cidade de Mariana, em Minas Gerais, Serra e Beaumont chegaram ao local dos acontecimentos para contar as histórias das vítimas e iniciar o trabalho que resultaria no documentário Rio Doce, Histórias de Uma Tragédia, que estreia no Canal Futura no dia 5 de junho (segunda-feira), às 22h15.

"Nosso objetivo sempre foi dar uma face mais humana à tragédia, uma face que todos pudessem se relacionar e ter empatia, para que a tragédia saísse dos números, da área criminal e política e ganhasse um rosto", afirma Serra. A destruição da barragem, que acumulava resíduos da extração de minério de ferro e era controlada pela empresa Samarco, liberou 50 milhões de metros cúbicos de lama — o suficiente para encher 20 mil piscinas olímpicas. 

Serra e Beaumont retornaram à região após seis meses para entender o impacto da tragédia na vida dos moradores. Ao percorrer os 500 quilômetros de extensão do rio, os diretores do documentário registraram que, além da destruição ambiental, o rompimento da Barragem do Fundão foi responsável por prejuízos irremediáveis às pessoas que construíram suas vidas nas proximidades do rio. "Pessoas que encontramos ao longo do Rio Doce perderam suas histórias, seus passados e tem agora um presente desprovido de qualquer sonho.  E os seus futuros serão para sempre marcados por um evento do passado, o dia em que o rio virou um mar de lama", afirma Beaumont. 

Para Debora Garcia, gerente de conteúdo e mídias digitais do Canal Futura, apresentar essa história é essencial para que a sociedade não se esqueça do que aconteceu em Mariana. "É preciso que toda a sociedade monitore de perto as consequências dessa tragédia, cobrando o poder público e das empresas envolvidas as soluções cabíveis."

Confira a seguir a entrevista completa com Pedro Serra e Hermano Beaumont:

Como foi o processo de realização de pesquisa para entender a extensão da tragédia ambiental de Mariana? O que observaram durante a busca pelos personagens?
Pedro: Nosso filme é baseado nos relatos das pessoas que foram atingidas diretamente pela tragédia. Não queríamos concorrer com o trabalho investigativo da imprensa, apontar culpados ou apresentar respostas. Nosso objetivo sempre foi dar uma face mais humana à tragédia, uma face que todos pudessem se relacionar e ter empatia, para que a tragédia saísse dos números, da área criminal e política e ganhasse um rosto.

Uma das principais observações ao acompanhar todo o trajeto da lama, de Mariana a Regência, foi constatar que a tragédia ia mudando durante o percurso do rio, de uma tragédia com mortes e destruição próximo a barragem, a questões sociais, econômicas e ambientais de diferentes escalas pelos cerca de 500 quilômetros entre um ponto e outro: o deslocamento do campo para a cidade, como ocorreu com os moradores de Bento Rodrigues, a falta d´água, os animais abandonados, problemas com a pesca, a agricultura e a pecuária, a queda no turismo, a perda de um local de lazer e até a perda de um local sagrado, como era o rio para os índios Krenak.

Durante a realização do documentário, houve alguma história que os tocou?
Hermano: Uma história marcante foi encontrada na colônia de pescadores de Governador Valadares. O líder da colônia pescava há 50 anos e, com a chegada do rejeito de minério de ferro a pesca foi proibida e a população não comprava mais peixe algum de rio, mesmo que fosse de outros locais. Ele sabia que sua vida útil acabara e estava apenas esperando a morte chegar, como nos contou. Estava em profunda depressão, sua saúde, que sempre fora ótima, estava péssima. Estava morrendo junto com o rio. Contava que no passado mergulhava no rio todos os dias, que o Rio Doce era parte de sua infância e que tudo aquilo acabou. Ouvir um relato como esse nos faz refletir sobre o modo como tratamos o nosso planeta. 

Pedro: Fiquei comovido com muitas das histórias coletadas durante a viagem. Foram mais de 100 entrevistas para a realização do filme e, claro, nem todas entraram no corte final. Tivemos que fazer escolhas difíceis, mas acredito que no final conseguimos montar um bom panorama de como a tragédia afetou as pessoas em várias esferas. Mas em meio aos relatos tristes, conseguimos tirar também histórias que nos motivavam, como a de diversas vítimas da tragédia que, mesmo tento perdido tudo para a lama, estavam trabalhando como voluntários no centro de doações improvisado no centro de Mariana.

É possível notar os impactos dos estragos meses após o ocorrido?
Pedro: Em alguns lugares, os impactos são mais visíveis, como os distritos de Paracatu de Baixo e Bento Rodrigues, onde houve destruição de casas. Rio abaixo, a tragédia não é visível, mas seus impactos são sentidos profundamente, principalmente na economia e no dia a dia das pessoas. O pescador está proibido de desenvolver sua atividade, sendo obrigado a viver com uma ajuda de custo fornecida pela Samarco.

O mesmo acontece com quem criava seu gado à beira do rio, usava sua água para irrigar lavouras, se aproveitava de correnteza para dar aulas de caiaque, das margens para o turismo ou das ondas de sua foz para o surf. Regiões ainda estão sem água ou com um fornecimento de uma água que poucos se atrevem a usar para lavar seus alimentos. A tragédia, hoje em dia, não é visível, mas está tão presente quanto no dia que a barragem estourou.

Uma das histórias principais do filme acompanha o personagem Nilton, que perdeu sua casa em Bento Rodrigues, morou durante um período em um hotel no centro de Mariana e não se acostumou com a vida na cidade. Se antes ele criava galinhas e tinha diversos animais, espaço e amigos a sua porta, agora estava confinado a um quarto pequeno e escuro, em uma via barulhenta da cidade. Seis meses depois, quando o reencontramos, ele havia decidido morar em um barraco que estava construindo, de apenas um cômodo, sem banheiro, em uma área de invasão nos arredores da cidade. Não havia conseguido ajuda da Samarco e não conseguiu morar com a mãe na casa fornecida pela empresa no Centro de Mariana. Essa história e muitas outras parecidas são os impactos mais visíveis ainda hoje, um ano e meio após a tragédia.

Como foi a experiência de conversar com os moradores da região? 
Hermano: Falar com os moradores foi a parte mais enriquecedora da realização do filme. Saber como eram suas vidas, suas rotinas, seus prazeres e como tudo mudou em apenas um dia nos faz perceber como a condição humana está intrinsicamente relacionada com o mundo em que vivemos. Que nossas vidas sempre serão afetadas pelo ambiente que nos encontramos. Essa é uma noção importante que esquecemos diante de preocupações rotineiras. Pessoas que encontramos ao longo do Rio Doce perderam suas histórias, seus passados e tem agora um presente desprovido de qualquer sonho. Um presente onde o que era certo, o rio, não é mais. E os seus futuros serão para sempre marcados por um evento do passado, o dia em que o rio virou um mar de lama.

 

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