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Os poetas que voltaram a ter voz através de Chico Xavier

Nos finais de tarde, Chico Xavier costumava frequentar o Açude do Capão, um local nos arredores de Pedro Leopoldo. O médium passeava pela área para meditar e orar na sombra das árvores. Numa tarde de 1931, Chico contou que viu a figura de um homem simpático, que vestia túnica sacerdotal e que estava rodeado por fortes raios luminosos. Os dois passaram a conversar, e o espírito disse que se chamava Emmanuel.

A figura da roupa brilhante perguntou se Chico estava disposto a colaborar com a difusão da filosofia espiritualista. Emmanuel (pronuncia-se “Emmânuel”) garantiu que o jovem seria amparado por bons espíritos, mas, caso aceitasse a missão, teria de demonstrar disciplina para dar conta de uma missão ousada: psicografar 30 livros enviados do plano espiritual. Segundo a história que Chico repetiu incontáveis vezes ao longo da vida, foi assim que ele começou a conviver com o seu guia.

Livros e entrevistas de Chico Xavier – e de outros autores espíritas – indicam quem Emmanuel teria sido em algumas das suas encarnações. O espírito que guiou o médium mineiro até seus últimos dias de vida teria vindo à Terra como um senador romano chamado Publius Lentulus Cornelius, que teria lutado contra a corrupção em Roma, encontrado Jesus Cristo pessoalmente e morrido vítima do vulcão Vesúvio, no ano de 79 (tal figura, apontam os historiadores, jamais existiu).

Seja como for, Emmanuel teria voltado ao mundo dos vivos um pouco mais tarde, no ano de 131, como um escravo de origem judaica, preso e condenado à morte por ser fiel a Jesus. Mas a sua passagem mais ilustre pelo planeta teria sido como Manuel da Nóbrega, o padre português responsável pela catequização de indígenas brasileiros, também fundador da cidade de São Paulo.

Teria sido nessa encarnação que o orientador de Chico ficou apaixonado pelas terras tupiniquins. Em sua última temporada na Terra, Emmanuel teria sido Padre Amaro, humilde religioso que viveu no Pará entre os séculos 19 e 20, tendo contato com o expoente espírita Bezerra de Menezes quando esteve no Rio de Janeiro.

Chico, enfim, partiu para a missão de produzir 30 livros. Mas teve de superar uma série de graves problemas antes de iniciar a tarefa. Em dezembro de 1931, o médium sentiu um desconforto no olho esquerdo, como se grãos de areia arranhassem o globo ocular a cada movimento. Ao consultar um especialista em Belo Horizonte, foi diagnosticado com uma catarata obscura e inoperável. Aos 21 anos, ele estava praticamente cego de um olho, com risco de perder a visão também do outro.

O tratamento era doloroso: injeções de corticoide diretamente no local afetado, as quais provocavam incômodas hemorragias. Outro obstáculo era encontrar tempo para psicografar. A madrasta Cidália Batista tinha morrido meses antes. Chico prometeu a ela cuidar dos irmãos e ajudar o pai a sustentar a casa, o que ocupava seu dia por inteiro. “Fiquei com 14 crianças, irmãos menores e sobrinhos. Não conseguia assumir o compromisso [de psicografar] porque os problemas domésticos eram muitos”, relembrou Chico Xavier décadas mais tarde.

Diante das dificuldades, o médium se viu na companhia de um Emmanuel implacável. Chico disse que o espírito não aceitou seu repouso de dois dias enquanto tratava os ferimentos no olho esquerdo. O médium contou que, nesse dia, Emmanuel perguntou por que Chico não estava escrevendo. Quando alegou que o olho estava doente, ouviu de seu orientador uma lição dura: “E o outro, o que está fazendo? Ter dois olhos é um luxo”.

São inúmeros os relatos de Chico que revelam um guia rígido, cujo papel principal não era oferecer consolo, mas cobrar disciplina para que as obrigações espirituais fossem cumpridas. Depois que um impactante caso de obsessão – irmãs que reagiam violentamente diante dos frequentadores do centro espírita – provocou uma debandada de adeptos, Chico sentou muitas noites sozinho à mesa para realizar sessões. Tinha recebido uma ordem de Emmanuel para manter as leituras religiosas, fundamentais não só para os vivos, mas também para os mortos ali presentes. Quando o médium cogitava desistir de sua missão, o guia, segundo Chico, se enfurecia.

No início dos anos 1930, Chico Xavier ainda era um médium desconhecido de uma pequena cidade do interior de Minas Gerais, sem grandes conexões com líderes do movimento espírita do Rio de Janeiro e de São Paulo. Essa situação mudou assim que o médium começou a psicografar poemas supostamente enviados de outro plano por escritores já falecidos, o que despertou interesse da cúpula da Federação Espírita Brasileira.

O grande salto na carreira de Chico foi dado com a publicação de Parnaso de Além-Túmulo, seu primeiro livro, em julho de 1932. A obra era uma coletânea de 60 poemas atribuídos a 14 autores mortos – nove brasileiros, quatro portugueses e um anônimo. Entre eles estavam nomes famosos como Augusto dos Anjos, Casimiro de Abreu, Cruz e Sousa, Olavo Bilac, Castro Alves e Artur Azevedo.

A temática da antologia girava em torno das visões dos poetas sobre como era a vida após a morte. Responsável pela publicação, Manuel Quintão, à época presidente da federação, logo tratou de defender a veracidade dos poemas psicografados pelo “rapaz de 21 anos, um quase adolescente”, dizendo no prefácio que nem mesmo o mais intelectual dos literatos era capaz de imitar tal produção.

Na abertura do livro, Chico se apresentou aos leitores. Esclareceu que estudou apenas até o fim do curso primário, tendo aprendido no período não mais que alguns “rudimentos de aritmética, história e vernáculo”. Ele garantiu que nunca invocou os espíritos dos poetas famosos, tendo recebido a série de poesias “a contragosto”, sem ter feito qualquer esforço intelectual. O médium explicou que, ao colocar os escritos no papel, sentia a sua mão impulsionada por outra. Outras vezes copiava os textos de livros “fantasmagóricos”, que só existiam no além. Também escrevia versos ditados ao seu ouvido. Afirmou que fluidos elétricos e vibrações indefiníveis invadiam seu corpo.

“Certas vezes, esse estado atingia o auge, e o interessante é que parecia-me haver ficado sem o meu corpo, não sentindo, por momentos, as menores impressões físicas. É o que eu experimento fisicamente quanto ao fenômeno que se produz comigo”, escreveu. O médium fazia questão de deixar claro que não era autor dos poemas, apenas um intermediário. Para mostrar que não escrevia em busca de dinheiro, seguindo os princípios da mediunidade gratuita, Chico abriu mão dos direitos do livro, oferecendo tudo à federação espírita para financiar ações sociais e o trabalho de divulgação da doutrina.

Humberto de Campos, membro da Academia Brasileira de Letras, falou sobre o trabalho de Chico em dois artigos publicados pelo Diário Carioca logo após o lançamento. “Os poetas de que ele é intérprete apresentam as mesmas características de inspiração e expressão que os identificavam neste planeta. O gosto é o mesmo e o verbo obedece, ordinariamente, à mesma pauta musical”, escreveu. Depois de apontar semelhanças entre os originais e as psicografias, o escritor foi taxativo: Parnaso de Além-Túmulo merecia a atenção dos estudiosos, para se descobrir o que há nele de “sobrenatural ou de mistificação”.

Parnaso foi uma publicação ousada – talvez a mais ousada entre os mais de 400 livros que Chico Xavier viria a publicar em quase 70 anos de carreira. No entanto, o debate em torno da obra explodiu mesmo em 1935, após a chegada da segunda edição, quase três vezes maior, com 173 poemas atribuídos a 32 autores falecidos. Entre eles estava o próprio Humberto de Campos, que tinha morrido em dezembro do ano anterior. A polêmica dessa vez foi enorme. Pela primeira vez, o nome do médium mineiro surgia nos jornais mais importantes do Brasil, em meio a debates acalorados.

Cada um dos poemas foi incessantemente examinado pelos críticos, sempre ávidos em encontrar indícios de plágio, de fraude. Esse objetivo, no entanto, logo se mostrou complicado. Críticos ortodoxos, que consideravam a ideia da sobrevivência do espírito um delírio religioso, classificaram a obra como pastiche, mera cópia do estilo literário dos autores. Para eles, Chico Xavier não passava de um imitador exímio do conteúdo e da forma dos falecidos. Mas como provar isso?

O caso do médium que psicografava escritores mortos despertou interesse de jornalistas. Em maio de 1935, o repórter Clementino de Alencar, do jornal O Globo, viajou até Pedro Leopoldo no intuito de desmascarar Chico. O jornalista acompanhou por mais de um mês o trabalho do jovem mineiro e realizou várias entrevistas com moradores da cidade, espíritas ou não. Também remexeu em arquivos de mensagens manuscritas por Chico e participou das sessões realizadas no centro Luiz Gonzaga. Na primeira delas, viu o jovem médium escrever com desenvoltura – de trás para frente – uma mensagem em inglês.

Viu surgir em folhas de papel dois poemas atribuídos ao espírito de Olavo Bilac e outro a Augusto dos Anjos. Desconfiado, o repórter testou Chico Xavier com perguntas difíceis sobre sistema monetário. As respostas vieram em longos e elaborados textos assinados por economistas mortos. Nas prateleiras da casa onde Chico morava com os irmãos, não havia livros dos escritores e poetas presentes em Parnaso. A cidade de Chico sequer contava com biblioteca.

As impressões de Clementino de Alencar foram publicadas semanalmente no jornal, de modo que os leitores puderam acompanhar passo a passo as investigações. No final da série de reportagens, o jornalista descartava a hipótese de charlatanismo. “Torna-se cada vez mais remota a ideia de fraude grosseira que tenha porventura surgido com as primeiras notícias relativas ao jovem médium de Pedro Leopoldo”, afirmou. Para Chico, o material produzido pelo jornal O Globo, com grande circulação em todas as regiões do país, serviu como defesa e também como divulgação.

Outros interessados no caso também viram suas crenças abaladas diante das habilidades do médium de Pedro Leopoldo. Nos anos seguintes, a polêmica sobre Parnaso seguiu ganhando páginas dos jornais. Em 1939, Agripino Grieco, crítico literário conhecido daqueles tempos, acompanhou uma sessão de psicografia realizada na sede da federação espírita em Belo Horizonte. Ficou surpreso com o que viu.

“Como crítico literário, não pude deixar de impressionar-me com o que realmente existe do pensamento daqueles dois autores”, disse em entrevista ao Diário da Tarde, ao analisar os escritos atribuídos a Augusto dos Anjos e Humberto de Campos. No jornal Correio do Povo, em 1941, o poeta gaúcho Zeferino Brasil – que, depois de morto, também teria poemas escritos pelas mãos de Chico – concluiu: “Ou as poesias em apreço são de fato dos autores citados e foram realmente transmitidas do Além ao médium que as psicografou, ou o Sr. Francisco Xavier é um poeta extraordinário, genial mesmo, capaz de produzir e imitar assombrosamente os maiores gênios da poesia universal”.

O jornalista e escritor Mário Donato, em artigo no jornal O Estado de S. Paulo em 1944, estava convencido que não era Chico quem escrevia os poemas. Na falta de explicações científicas sobre a psicografia, decidiu colocar tudo na conta do milagre. “É milagre, e o milagre, não explicando nada, explica tudo. Pois se não admitirmos que o caso é milagroso, temos que levar o Chico Xavier à Academia Brasileira de Letras”, escreveu. Melo Teixeira, psiquiatra e professor da Universidade Federal de Minas Gerais, que conhecia Chico pessoalmente, não acreditava na tese de pastiche.

“Fazê-lo, como Chico Xavier o costuma, de improviso, numa elaboração e redação instantâneas, sem segundos sequer de meditação para coordenar ideias, passando em sucessão ininterrupta da prosa ao verso, da página de ficção para a de filosofia, ou moral (…) é alguma coisa de inexplicável, que não está ao alcance de qualquer imitador de estilos ou amadores de contrafação literária”, escreveu no Diário da Tarde, jornal mineiro, também em 1944. Para Teixeira, para fazer um pastiche digno, seria preciso dedicação exclusiva, edições constantes, além de mil e um retoques.

Os vários anos de debates em torno de Parnaso fizeram Chico Xavier famoso. Foi devido aos relatos sobre as assombrosas capacidades mediúnicas do mineiro que as primeiras caravanas do Rio e de São Paulo começaram a chegar a Pedro Leopoldo, enchendo as sessões antes vazias no centro espírita Luiz Gonzaga.

Em muitas noites, mais de 300 pessoas eram atendidas. Chico indicava aos doentes as homeopatias que garantia terem sido receitadas na hora pelo espírito do médico Bezerra de Menezes, o ícone do espiritismo brasileiro do século 19, falecido em 1900. Chico Xavier psicografava centenas de mensagens, segundo ele, enviadas por mortos para consolar os familiares. O médium pedia aos visitantes que fizessem trabalhos de caridade. E difundia o credo espírita por meio dos livros que indicava aos interessados.

Chico, porém, só conseguiu alcançar a disciplina exigida pelo guia Emmanuel quando o emprego no armazém de José Felizardo ficou pela bola sete. O dono do mercado havia sofrido uma trombose no cérebro, e a doença afetou as finanças do empório. Com o salário sofrendo baixas, Chico teve de procurar alternativas de sustento e encontrou a vaga temporária na Inspetoria Regional do Serviço de Fomento da Produção Animal, na chamada Fazenda Modelo.

O armazém de José Felizardo acabou falindo no segundo semestre de 1935. Rômulo, o administrador da Fazenda Modelo, era espírita praticante e frequentava o centro Luiz Gonzaga. Com a falência do mercadinho, agarrou a oportunidade de contratar Chico, que virou datilógrafo do governo. O médium passava os dias escrevendo relatórios sobre cavalos e bois no novo emprego. Rômulo era um chefe disciplinador que estava interessado no trabalho do médium dentro e fora da repartição.

Tanto que passou a convocar Chico para as sessões espíritas que ocorriam na sua casa todas as quartas-feiras à noite. Além disso, ele organizou uma sala na própria residência onde o médium cumpria um terceiro turno, psicografando os livros ditados do além.

Com o ambiente propício para a concentração, novas edições de Parnaso surgiram com mais poemas inéditos. Alguns dos textos já publicados foram revisados e até mesmo retirados da obra por orientação, segundo o médium, de espíritos que atuavam como editores. O principal deles era Emmanuel, a quem Chico dizia recorrer quando tinha dificuldade para entender mensagens ditadas por autores mortos, recebendo do seu guia instruções que o ajudavam a desenvolver seu talento. A sexta e definitiva versão de Parnaso de Além-Túmulo só seria publicada em 1955, contendo 259 poemas de 56 autores diferentes.

As semelhanças com o tipo de linguagem dos supostos autores surpreendem. Um desses casos é o do poeta Augusto dos Anjos. Filho de família de proprietários de engenhos, ele nasceu no Engenho Pau d’Arco, na Paraíba, em 1884. Formado em Direito, nunca exerceu a profissão. Morando no Rio de Janeiro, começou a se dedicar às faculdades de português e geografia. Em vida, só publicou um livro, intitulado Eu, em 1914, misturando características do parnasianismo e do simbolismo. Morreu de pneumonia logo depois, aos 30 anos.

Nos textos atribuídos ao falecido, Chico Xavier reproduz, tal como Augusto dos Anjos, os versos com dez sílabas poéticas, as aliterações (repetição de fonemas) e coliterações (repetição de fonemas de um mesmo grupo fonético). Também introduz comparações a partir de apostos ou vocativos, entre outros detalhes observados pelos especialistas.

Outro destaque de Parnaso são os poemas atribuídos ao português Antero de Quental. Nascido em Ponta Delgada, em 1842, o escritor foi um dos poetas realistas mais famosos do seu país. Pertenceu à Geração de 70, um movimento acadêmico que queria renovar os ânimos intelectuais no século 19, da política à literatura. Antero escreveu poesia e ensaios filosóficos com influência de Hegel e do positivismo. Sofria com transtorno bipolar, sendo sua carreira marcada por uma mudança de visão: era no começo idealista e terminou pessimista. Deprimido, cometeu suicídio em 1891.

Nas mãos de Chico, Quental voltou com sua poesia filosófica, conservando o mesmo tipo de acentuação e ainda o estilo de rimas, de adjetivo com substantivo. Os poemas fazem uso de enjambements, isto é, um encadeamento sintático entre versos. Analistas destacam ainda a repetição de termos, o predomínio de acentos na sexta e décima sílabas poéticas, bem como a angústia existencial como tema recorrente. No poema a seguir, porém, surge uma característica comum à obra psicografada de Chico Xavier. O médium é bem mais religioso que seus autores mortos. Veja.

Deus

antero de quental, por Chico Xavier

 

Quem, senão Deus, criou obra tamanha, 

O espaço e o tempo, as amplidões e as eras, 

Onde se agitam turbilhões de esferas, 

Que a luz, a excelsa luz, aquece e banha?

 

Quem, senão ele fez a esfinge estranha

No segredo inviolável das moneras, 

No coração dos homens e das feras, 

No coração do mar e da montanha! 

 

Deus!… somente o Eterno, o Impenetrável, 

Poderia criar o imensurável

E o Universo infinito criaria!…

 

Suprema paz, intérmina piedade, 

E que habita na eterna claridade

Das torrentes da Luz e da Harmonia! 

 

À Morte

antero de quental, em vida

 

Ó Morte, eu te adorei, como se foras

O Fim da sinuosa e negra estrada, 

Onde habitasse a eterna paz do Nada

As agonias desconsoladoras.

 

Eras tu a visão idolatrada

Que sorria na dor das minhas horas, 

Visão de tristes faces cismadoras, 

Nos crepes do Silêncio amortalhada.

 

Busquei-te, eu que trazia a alma já morta, 

Escorraçada no padecimento, 

Batendo alucinado à tua porta;

 

E escancaraste a porta escura e fria, 

Por onde penetrei no Sofrimento, 

Numa senda mais triste e mais sombria.

Outro dos autores que Chico dizia receber era Cruz e Sousa, o principal poeta do simbolismo brasileiro. Nascido em 1861, em Nossa Senhora do Desterro, hoje Florianópolis, era filho de ex-escravos e cresceu sob a proteção dos antigos proprietários, que bancaram sua educação. Sofreu a vida inteira preconceito por ser negro. Chegou a ser nomeado promotor, mas não pôde assumir a função por conta da cor da pele. Seus livros mais célebres foram Missal e Broquéis, que o consagraram como fundador do simbolismo brasileiro, com poesias musicais, pessimistas, cheias de metáfora e com linguagem rebuscada.

Casou-se e teve quatro filhos, que morreram todos de tuberculose, doença que também levou o poeta, aos 36 anos. Os textos publicados por Chico mantêm o tom religioso e a ideia de sofrimento redentor que marcam a última fase da carreira de Cruz e Sousa. Neles a morte segue como tema recorrente, bem como a preocupação com as pessoas desassistidas e marginalizadas. Os especialistas apontam ainda as semelhanças nos versos musicais, os sonetos líricos com foco na subjetividade, a linguagem rebuscada e a sinestesia, recurso que associa dois ou mais sentidos.

O escritor, jornalista e político maranhense Humberto de Campos, responsável por esquentar a polêmica em torno de Parnaso, nasceu na cidade de Miritiba, hoje chamada Humberto de Campos, em 1886. Fez sucesso com crônicas e entrou para a Academia Brasileira de Letras graças à sua produção poética, bastante valorizada na época. Como jornalista, escreveu para diversos jornais do país. Caiu nas graças do público ao escrever contos humorísticos sob o nome Conselheiro XX. A produção, no entanto, não agradou a crítica literária, que a considerou literatura rasa.

O auge da popularidade veio pouco antes da morte, quando, gravemente enfermo, escreveu sobre si mesmo. Faleceu em 1934, aos 48 anos, como um dos escritores mais lidos do Brasil. Mas teria voltado à ativa pelas mãos do médium de Pedro Leopoldo, em crônicas semelhantes às escritas em vida. Textos que expõem um fato acontecido, fazem analogia a caso lendário, histórico ou literário, e que contêm uma conclusão em tom moralizante. Há nos textos atribuídos a Humberto o mesmo tom espontâneo, o humor e a malícia refinada. Também estão lá a erudição e o culto pela elegância, assim como o interesse pelo popular.

Enquanto jornalistas, críticos literários, religiosos e intelectuais dissecavam os poemas de Parnaso de Além-Túmulo, Chico Xavier mantinha o foco nas psicografias. O livro de estreia, no fim das contas, era apenas o primeiro dos 30 que, segundo Chico, Emmanuel havia encomendado. O médium agora demonstrava interesse em escrever histórias como as psicografadas por uma médium pioneira chamada Zilda Gama.

Chico era grande admirador do trabalho de Zilda. Depois de ler com entusiasmo uma novela atribuída ao espírito do poeta, romancista e dramaturgo francês Victor Hugo, ele queria ampliar seu leque de estilos. Além de poemas, de crônicas e de mensagens instrutoras, o mineiro queria receber do plano espiritual romances empolgantes como os que Zilda colocava no papel.

Nascida em 11 de março de 1878, no interior de Minas Gerais, Zilda Gama teve uma vida conturbada, assim como Chico. Aos 24 anos, com a morte dos pais, teve de cuidar de cinco irmãos e de cinco sobrinhos. Era uma professora dedicada, diretora da escola em que trabalhava. Certo dia, quando orava sozinha, disse ter percebido a presença de um espírito que a incentivava a escrever. Assim que pegou o lápis, teria colocado no papel uma mensagem do próprio pai, que a consolava e avisava que uma missão de grande importância estava reservada para ela. Era o início da sua carreira como médium psicógrafa.

Em 1912, aos 34 anos, Zilda escreveu seus primeiros textos assinados por Allan Kardec, falecido em 1869. Ela assinaria outros supostamente enviados pelo pai do espiritismo, mensagens compiladas no livro Diário dos Invisíveis, de 1929. Mas a grande empreitada de Zilda seria iniciada em 1916, quando ela contou ter sido avisada por seus orientadores que escreveria uma novela ditada por Victor Hugo, morto em 1885 e autor de Os Miseráveis e O Corcunda de Notre-Dame.

O livro Na Sombra e na Luz, de 1917, se passa quase todo no século 19 e ganhou quatro obras como continuação: Do Calvário ao Infinito, Redenção, Dor Suprema e Almas Crucificadas. Cada obra narra uma encarnação dos personagens, mostrando a evolução de seres degenerados e sofredores. Essa série é considerada um dos maiores clássicos da literatura espírita. Em 1959, após sofrer um derrame cerebral, Zilda passaria a viver numa cadeira de rodas. A escritora morreu em janeiro de 1969, pouco antes de completar 91 anos.

O primeiro movimento de Chico Xavier na nova direção veio com a publicação do livro Emmanuel, em 1938, definido no subtítulo como “dissertações mediúnicas sobre importantes questões que preocupam a humanidade”. A obra atribuída ao guia espiritual aborda o papel dos médiuns, esclarece pontos da doutrina espírita e busca delinear os ideais que devem nortear o ser humano ao longo da vida.

A primeira parte trata das tradições religiosas e da evolução da fé no contexto histórico, falando da ascendência do Evangelho, das origens do cristianismo em Roma e do catolicismo na Europa moderna. A segunda metade trata de temas científicos e filosóficos à luz da teoria espírita, como a consciência humana, os animais no plano terrestre, a civilização ocidental, a saúde humana, o livre-arbítrio e o modus operandi dos espíritos.

Em 1939, Chico psicografou A Caminho da Luz, livro que faz um retrato da humanidade à luz do espiritismo. A história começa na criação do Universo e avança no tempo para falar de egípcios, hindus, israelitas, chineses, gregos e romanos. O escritor aborda períodos importantes da história, como as Cruzadas na Idade Média, a Revolução Francesa e o descobrimento da América. Personagens de destaque na história são apontados como enviados de Deus, caso de Sócrates e Platão, além das figuras-chave das grandes religiões: Abraão, Moisés, Confúcio, Buda, Jesus, Maomé e Allan Kardec.

Primeiro romance épico de uma série de cinco volumes, Há Dois Mil Anos, de 1940, narra o nascimento do cristianismo a partir da figura do próprio Emmanuel. Como já dissemos, o espírito teria sido, em uma de suas encarnações, um senador da Roma antiga chamado Publius Lentulus Cornelius. O político, segundo a obra de Chico, fora enviado pelo imperador para a Palestina a fim de fiscalizar Pôncio Pilatos, acusado de corrupção, exatamente na mesma época em que Jesus pregava entre os judeus. Na parte mais empolgante do romance, o senador encontra Jesus. Lentulus, porém, teria sido orgulhoso e não dado muita bola para o filho de Deus. Depois, se arrependeu e passou a pregar o cristianismo para se redimir.

Outro romance de fundo histórico escrito pelas mãos de Chico (e assinado por Emmanuel) é Paulo e Estêvão, de 1941. O livro tem como protagonista o apóstolo Paulo e se passa em Jerusalém. A narrativa vai desde quando Paulo empreendeu perseguições a cristãos até o momento de sua conversão. Para todos os efeitos, o livro é o Ato dos Apóstolos, o quinto do Novo Testamento, reescrito pelo espiritismo. O Estevão do título é o espírito Santo Estevão, mártir do cristianismo, que ajuda o apóstolo Paulo ao aparecer em sonhos. Em 1943, Chico publicou o livro Renúncia, que aborda períodos conturbados da história religiosa ocidental, como a criação da Inquisição, a reforma protestante, as perseguições promovidas pelos católicos e a atuação dos jesuítas pelo mundo.

Chico Xavier bateu a meta dos 30 livros encomendados por Emmanuel. Com folga. Entre os mais de 400 livros publicados pelo médium ao longo da carreira, quase 117 são atribuídos ao espírito. Chico nunca deixou de citar a presença e a influência de Emmanuel sempre que possível. Em 1998, já no final da vida, Chico afirmou que seu guia iria reencarnar na Terra por volta do ano 2000, vivendo no Estado de São Paulo.

Ao mesmo tempo em que os primeiros volumes atribuídos a Emmanuel eram publicados, Chico também lançou livros inteiramente assinados pelo espírito de Humberto de Campos, entre eles Pátria do Evangelho, de 1938, Novas Mensagens, de 1940, e Boa Nova, de 1941. Esses trabalhos, no entanto, geraram problemas para o médium e para a Federação Espírita Brasileira.

A viúva do escritor, Catharina Vergolino de Campos, começou a solicitar à entidade os royalties sobre os títulos atribuídos ao marido falecido e colocou Chico novamente no centro de uma grande polêmica nacional. Os debates em torno das psicografias de Chico – principalmente em relação a poemas de autores famosos em Parnaso – ainda ganhavam espaço nos jornais da época, e o médium se viu no meio de duas frentes de batalha simultâneas na imprensa.

Em 1944, a viúva e os filhos do escritor entraram com um processo judicial. A família de Humberto de Campos queria que a Justiça decidisse se os livros psicografados por Chico Xavier eram mesmo de autoria de Humberto de Campos. Se a Justiça entendesse que os escritos eram fraudes, a viúva pedia o pagamento de indenização por perdas e danos, podendo Chico ser preso por falsidade ideológica.

Caso a obra póstuma fosse considerada legítima, Catharina queria receber os direitos autorais. A opinião pública aguardava com grande expectativa a decisão do juiz João Frederico Mourão Russell. Isso porque a ação colocou a autoridade frente a um dilema inédito e peculiar. Se aceitasse a tese de fraude, talvez o médium mineiro acabasse preso. Se avaliasse os textos como verdadeiros, a Justiça brasileira aceitaria formalmente a existência de vida após a morte, dando a jurisprudência ao pagamento de direitos autorais por livros ditados do além.

Críticos literários e outros interessados analisaram a fundo outra vez os livros em questão. Houve divergência entre quem via embuste e quem confiava na palavra de Chico. O médium, mesmo diante da possibilidade de ser preso, confirmou que tinha contato com o espírito de Humberto de Campos e com os demais autores que já havia psicografado.

No meio da polêmica, em 15 de julho de 1944, o próprio morto teria demonstrado o desconforto com a situação em carta psicografada por Chico Xavier:

Eis, porém, que comparecem meus filhos diante da Justiça, reclamando uma sentença declaratória. Querem saber, por intermédio do Direito humano, se eu sou eu mesmo, como se as leis terrestres, respeitabilíssimas embora, pudessem substituir os olhos do coração.

Abre-se o mecanismo processual e o escândalo jornalístico acende a fogueira da opinião pública. Exigem meus filhos a minha patente literária e, para isso, recorrem à petição judicial. Não precisavam, todavia, movimentar o exército dos parágrafos e atormentar o cérebro dos juízes. Que é semelhante reclamação para quem já lhes deu a vida da sua vida? Que é um nome, simples ajuntamento de sílabas, sem maior significação? Ninguém conhece, na Terra, os nomes dos elevados cooperadores de Deus, que sustentam as leis universais; entretanto são elas executadas sem esquecimento de um til.

Na paz do anonimato, realizam-se os mais belos e os mais nobres serviços humanos. Quero, porém, salientar, nesta resposta simples, que meus filhos não moveram semelhante ação por perversidade ou má-fé. Conheço-lhes as reservas infinitas de afeto e sei pesar o quilate do ouro da carinhosa admiração que consagram ao pai amigo, distanciado do mundo. Mas, que paisagem florida, em meio do mato inculto, estará isenta da serpe venenosa e cruel? É por isto que não observo esse problema triste, como o fariseu orgulhoso, e sim como o publicano humilhado, pedindo a bênção de Deus para a humana incompreensão.

No fim de 1944, o juiz declarou que a viúva só tinha direito a receber dinheiro pelos livros que o marido havia publicado em vida. Com a decisão, a Justiça encontrava uma saída em que não era preciso julgar se as psicografias eram ou não verídicas. Chico estava livre para seguir seu trabalho.

A produção do médium era solitária – no plano físico, ao menos. Raramente era visto em confraternizações e não há registro de que tenha tido um namoro. Passava os dias no trabalho ou escrevendo. Não se sentia sozinho, pois vivia cercado de vozes. E, em meio à polêmica sobre os livros de Humberto de Campos, ele ganhou uma nova companhia. Chico relatou que um novo espírito começou a rondar suas sessões de psicografia ao lado do velho guia Emmanuel: André Luiz.

Este conteúdo faz parte do livro Chico Xavier: A vida. A obras, publicado pela Superinteressante em 2016.

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