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Terrorismo: 5 fatos históricos para entender a questão

Soldados norte-americanos patrulham o Afeganistão (Foto: Wikimedia Commons)

As cenas de violência e terror presenciadas em Londres na noite de sábado, 03 de junho, repetem um roteiro trágico vivido pelos países europeus nos últimos anos e que fazem parte de um conflito sem perspectiva de fim. No mais recente ataque, três terroristas atropelaram e esfaquearam inocentes nas proximidades da London Brige, um dos cartões postais da cidade, causando a morte de sete pessoas e deixando dezenas de feridos em estado grave. 

Esse foi o terceiro atentado que aconteceu no Reino Unido apenas neste ano: no dia 22 de maio, na cidade de Manchester, uma explosão na saída do show da cantora Ariana Grande matou 22 pessoas; em 22 de março, um terrorista causou a morte de três pessoas em frente ao Parlamento britânico. O Estado Islâmico, organização fundamentalista que ganhou forças durante a Guerra Civil da Síria, reinvidicou os três ataques. 

Logo após os atentados de 11 de setembro de 2001, que atingiram o Pentágono e destruíram os edifícios do World Trade Center, o presidente norte-americano George W. Bush declarou uma campanha de "Guerra ao Terror", anunciando uma mobilização nunca antes vista para combater o terrorismo. Desde então, o mundo presenciou uma escalada de guerras, ocupações militares e investimentos em tecnologia bélica com a justificativa de combate às ações terroristas.

Passados mais de 15 anos do início da ofensiva norte-americana, ditadores no Oriente Médio e na África foram depostos, o terrorista Osama bin Laden foi morto, líderes de grupos fundamentalistas foram presos ou assassinados por ataque de drones. Por que, então, ataques como os de Londres, Paris ou Estocolmo voltam a se repetir? Nesse caso, a História pode dar uma ajudinha para entender os principais questões sobre o assunto:

1. O fundamentalismo não é exclusividade da religião islâmica 
No dia 22 de julho de 1946, uma bomba explodiu em um hotel na cidade de Jerusalém, causando a morte de quase 100 pessoas. Os autores do ataque terrorista? A Irgun, uma organização paramilitar que reinvidicava a criação de um Estado nacional judaico na região da Palestina — a maioria das vítimas eram de árabes e de britânicos, que administravam os territórios palestinos na época. 

Se os métodos violentos não são exclusividade de uma religião, isso também acontece com a interpretação dos textos sagrados: a palavra fundamentalismo, por sinal, provém de um grupo cristão chamado American Bible League, que no início do século 20 publicou livros intitulados de The Fundamentals, A Testimony to the Truth (Os Pontos Fundamentais, um Testemnho Para a Fé). Nesses livros, defendia-se a leitura literal dos textos bíblicos, negando as teorias científicas. 

Os textos religiosos, de acordo com o fundamentalismo, são lidos sem interpretação e contextualização histórica, sendo utilizados para afirmar uma visão de mundo. Não é de surpreender, portanto, que a absoluta maioria dos 1,6 bilhão de praticantes da religião islâmica rejeitam o fundamentalismo praticado por grupos terroristas e defendem a religião como um instrumento de paz. 

Tropas israelenses lutam pela independência do país, em 1948: alguns grupos realizaram atentados terroristas em defesa da causa (Foto: Wikimedia Commons)

 



 







 



 

2. Os atentados não acontecem apenas em países ocidentais
No início do século 19, o líder religioso islâmico Usman dan Fodio iniciou uma guerra no território que hoje corresponde a Nigéria para punir etnias que mantinham ligações com outras religiões. A vitória de Fodio resultou na criação do Califado se Sokoto, uma das inspirações para o grupo Boko Haram — fundado em 2002, a organização terrorista nigeriana deseja implantar um Estado muçulmano na região governado de acordo com a interpretação fundamentalista do Alcorão, o livro sagrado islâmico. 

Desde então, membros do Boko Haram estão ligados a ataques na África Ocidental: em 2014, o grupo terrorista sequestrou 276 meninas, ganhando os holofotes da imprensa internacional. O grupo também é responsável por massacres contra a população cristã que vive no norte da Nigéria — os conflitos com tropas do governo já deixaram mais de 13 mil mortos e obrigaram mais de 1 milhão de pessoas a abandonarem suas casas. 

3. A perseguição a minorias já aconteceu no passado: o resultado foi um genocídio 
No início do século 20, um texto inicialmente divulgado no Império Russo começou a circular por diferentes países europeus e ganhou fama: intitulado de Os Protocolos dos Sábios de Sião, o livro falava a respeito de uma conspiração organizada por judeus e maçons para a dominação do mundo e a destruição dos valores ocidentais. Não foi necessário realizar uma investigação mais extensa para verificar que o documento não passsava de uma farsa arquitetada para justificar a repressão às minorias religiosas no Império Russo. 

Mesmo assim, a reprodução dos textos mentirosos continuou a circular pela Europa e foi responsável por uma série de desastres humanitários. Logo após a Revolução Russa, em 1917, partidários do imperador deposto afirmavam que Vladimir Lenin e os membros do Partido Bolchevique faziam parte de um complô "judaico-bolchevique": durante a guerra civil que tomou o país, os exércitos contrários à revolução promoveram pogrons, termo dado ao massacre sofrido por judeus e outras minorias étnicas e religiosas. 

Anos mais tarde, o histórico preconceito contra a religião judaica — estimulada pela Igreja Católica desde antes da Idade Média europeia — também foi responsável pela máquina genocida liderada por Adolf Hitler e o Partido Nazista da Alemanha.

Culpar todos os integrantes de uma religião por problemas políticos e sociais mostra-se um caminho assustadoramente perigoso, mas que é reproduzido por políticos europeus da atualidade. Marine Le Pen, candidata à presidência da França que ficou na segunda colocação das eleições de maio deste ano, sustentou seu discurso político na promessa de banir vistos para imigrantes e controlar as fronteiras do país. 

4. Os Estados Unidos não apoiam necessariamente os mocinhos 
Em uma das cenas de Rambo III, o soldado interpretado pelo ator Sylvester Stallone e que valia como "um exército de um homem só" interage de maneira amistosa com os "guerreiros da liberdade" do Afeganistão — essas milícias combatiam a presença das tropas da União Soviética no país asiático, que manteviveram uma ocupação militar de 1979 a 1989.

Acontece que os tais "guerreiros da liberdade" apoiados pelos Estados Unidos durante a década de 1980 se tornariam os principais responsáveis das ações  fundamentalistas: após a saída da União Soviética, uma guerra civil no Afeganistão levou à ascensão do movimento Talibã ao poder. Osama bin Laden, herdeiro de uma família rica da Arábia Saudita, era um dos "guerreiros da liberdade" que combateram os soldados da União Soviética no Afeganistão.

Mesmo após os atentados de 11 de setembro, o posicionamento dos Estados Unidos em relação a seus aliados continua a ser guiado mais pelos interesses políticos e econômicos do que pela ordem de "Guerra ao Terror": Ali Abdullah Saleh, que durante 33 anos exerceu o cargo de presidente do Iêmen de maneira autoritária, era um dos aliados norte-americanos no Oriente Médio. O país, no entanto, era uma das bases do grupo terrorista Al Qaeda: de acordo com especialistas, Saleh utilizava o discurso de combate ao terrorismo como moeda de troca para receber apoio militar dos Estados Unidos, mas sem efetivamente buscar soluções para acabar com o crescimento do fundamentalismo islâmico. 

Já a Arábia Saudita, uma monarquia conhecida por reprimir direitos de minorias e oferecer pouquíssimos direitos individuais às mulheres, é uma das principais aliadas dos Estados Unidos no Oriente Médio. Com a segunda maior produção de petróleo do mundo, a Arábia Saudia mantém o apoio à "Guerra ao Terror": na segunda-feira, 05 de junho, o a monarquia saudita rompeu laços diplomáticos com o Catar sob a justificativa de que o país é apoiador de grupos terroristas — em 2022, a Copa do Mundo da FIFA será sediada justamente no Catar. 

Após mais de 15 anos de "Guerra ao Terror", a ameaça de grupos fundamentalistas persiste (Foto: Wikimedia Commons)

5. A violência da "Guerra ao Terror" apenas dá apoio a grupos fundamentalistas
Considerado um método tecnológico e cirúrgico para eliminar alvos terrorista, a utilização de drones armados com mísseis se tornou uma das principais plataformas militares durante o governo do presidente Barack Obama, entre 2009 e 2016. Acontece que nem sempre a tecnologia é tão precisa: no ano passado, o próprio governo norte-americano reconheceu que os ataques assassinaram até 116 civis — um número muito abaixo dos relatórios divulgados por grupos de direitos humanos que monitaram as atividades dos drones. 

Com tantos erros militares, a violência das tropas ocidentais alimenta a retórica dos grupos fundamentalistas de combater a ameaçada dos "infiéis". O jornalista norte-americano Jeremy Scahill, autor do livro Guerras Sujas, percorreu os passos dos grupos de elite do exército dos Estados Unidos e visitou locais por onde ocorreram operações militares. Na região de Paktia, no Afeganistão, uma festa familiar foi interrompida pela ação das forças especiais norte-americanas, causando a morte de cinco pessoas — duas mulheres assassinadas estavam grávidas.

Em um relato extraído do documentário inspirado no livro Guerras Sujas, um dos sobreviventes afirma que "Eu não queria mais viver. Eu queria usar um colete com explosivos e me explodir entre os americanos, mas meu pai e meu irmão não deixaram. Eu desejava uma jihad contra os americanos". Não é um simples clichê afirmar, afinal, que a violência apenas é geradora de violência.

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