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Você deveria saber o que são os desreguladores endócrinos

Os desreguladores endócrinos são consequência da liberação de compostos químicos (Foto: Pixabay/SD-Pictures)

 

Apesar de serem ilustres desconhecidos da maior parte da população, eles estão por todos os lados: no ar, na água, nos cosméticos, nas garrafas de plástico… Compostos químicos sintéticos, os desreguladores endócrinos se espalham pelo meio ambiente e afetam o funcionamento dos hormônios de humanos e animais, alterando ou anulando diferentes reações químicas responsáveis pelo funcionamento do organismo.

O contato com os desreguladores endócrinos acontece de várias maneiras: alguns deles são inalados, como os presentes em pesticidas ou emitidos na combustão do diesel; outros são absorvidos pela pele, caso daqueles que fazem parte da composição de cosméticos; e há ainda aqueles que são ingeridos junto com água ou com alimentos contaminados. A consequência são problemas de saúde que vão desde o mal desenvolvimento dos órgãos sexuais até a incidência de doenças como câncer e diabetes.

Pouco debatido nos países em desenvolvimento, o assunto ganhou relevância nos Estados Unidos e na Europa, onde cientistas iniciaram uma batalha para pressionar o poder público a regulamentar essas substâncias. Enquanto a indústria argumenta que faltam provas sobre os malefícios causados pela liberação desses compostos químicos, a ciência apresenta evidências concretas de que eles são, sim, bastante perigosos.

A primeira pista de que existiam substâncias no ambiente capazes de afetar o sistema endocrinológico — o conjunto de glândulas responsável pela secreção dos hormônios — foi publicada pela bióloga americana Rachel Carson no livro Primavera Silenciosa, de 1962. Na obra, a autora relatou como os pesticidas, especialmente o DDT (diclorodifeniltricloroetano), prejudicavam a reprodução e até matavam os pássaros. Dez anos depois, o uso desse pesticida na agricultura foi proibido nos Estados Unidos.

Hoje, há 194 substâncias conhecidas pela União Europeia cujos efeitos nocivos sobre o organismo já foram comprovados por pelo menos um estudo científico. E algumas organizações e cientistas acreditam na existência de outras centenas de casos envolvendo os compostos sintéticos.

A exposição a essas substâncias pode causar efeitos imediatos ou consequências que só serão sentidas anos mais tarde. As fases fetal e da infância são o período mais vulnerável — nessa época, os hormônios responsáveis pela diferenciação e desenvolvimento dos órgãos trabalham ativamente. Na fase adulta, os efeitos a curto prazo cessam assim que o contato com as substâncias é interrompido. Mas novas pesquisas afirmam que moléculas afetadas por mutações após o contato com os desreguladores endócrinos podem ser transmitidas hereditariamente, o que permitiria que a doença se manifestasse nos filhos e netos das pessoas infectadas.

Apesar do avanço nos estudos científicos, poucos passos concretos foram dados até agora para a regulamentação das substâncias. Há um ano, o comissário da União Europeia para a Saúde e Segurança Alimentar, Vytenis Andriukaitis, finalmente divulgou (com mais de um ano e meio de atraso em relação ao prazo combinado) os critérios do bloco para a identificação de um desregulador endócrino. A lista causou polêmica pela severidade das normas adotadas. De acordo com o comissário, para que os compostos químicos sejam classificados como perigosos, serão exigidos estudos que comprovem uma relação de causalidade entre cada um deles e os problemas de saúde apresentados pelas pessoas.

“Nós estamos expostos a várias substâncias danosas simultaneamente, por isso é difícil para um estudo provar que só uma delas causa determinada doença”, diz a bióloga francesa Virginie Rouiller-Fabre, professora da Universidade Paris Diderot.

PRESSÃO POLÍTICA

A fim de chamar a atenção da sociedade para o problema, um grupo de quase cem cientistas — quase todos da Europa e dos Estados Unidos — assinou uma carta aberta publicada pelo jornal francês Le Monde. No texto, eles comparam a área de pesquisa dos desreguladores endócrinos à de mudanças climáticas. Segundo eles, as evidências científicas que mostram como os desreguladores endócrinos afetam a saúde são inegáveis e os governos devem se mexer para regulamentá-los.

“Assim como não há dúvida sobre a contribuição da atividade humana para as mudanças climáticas, é evidente a relação entre a produção química — que aumentou 300 vezes nos últimos 40 anos — e a maior incidência de doenças não infecciosas ligadas a fatores ambientais”, diz a bióloga inglesa Barbara Demeneix, codiretora de um laboratório sobre o tema no Museu de História Natural da França e uma das autoras da carta. “Conseguimos a atenção das pessoas, mas resta saber se isso se converterá em movimentos políticos.”

No Brasil, o debate ainda está engatinhando. Em 2010, uma campanha da Sociedade Brasileira de Endocrinologia resultou na proibição da presença do bisfenol A em mamadeiras — presente no plástico, a substância está relacionada a problemas no desenvolvimento sexual. A iniciativa ainda miraria outros objetos, como mordedores e brinquedos, mas foi interrompida diante da pressão de empresários do setor do plástico.

Presidente da Comissão de Desreguladores Endócrinos do órgão, a médica Elaine Costa faz parte de uma força-tarefa criada pelo Ministério Público para avaliar a presença das substâncias sintéticas na região das bacias dos rios paulistas Piracicaba, Cotia e Jundiaí. “Precisamos fazer com que o Brasil entre nessa discussão e incentive políticas de prevenção”, diz. Pelo que a experiência internacional mostrou, o caminho para essas mudanças não será nada fácil.

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