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A máscara

O bisturi e o verso.
Dois instrumentos
Entre as minhas mãos.
Um deles rasga o Tempo
O outro eterniza
Aquele tempo-ouro sem medida.
Hilda Hilst

Era jovem ainda, ou ao menos era como se sentia. Se olhava no espelho, um rosto sem rugas, um corpo ágil, podia caminhar longas distâncias, e acordava cedo todas as manhãs, a natação nas primeiras horas, o mesmo entusiasmo, as mesmas braçadas de um extremo ao outro da piscina. Era jovem ainda, os pensamentos em círculos, poderia usar as mesmas roupas dos seus vinte anos, minissaia, calça jeans, no dedo anular direito um anel de prata que comprara, ainda adolescente, numa viagem a Paraty. Só nas fotos a suspeita de que algo estranho, algo subterrâneo tomava forma à sua revelia, mas era só um instante, um vislumbre que logo se dissipava, a vida recuperando seu ritmo normal, não, nada acontecia, ela se acalmava enquanto penteava a longa cabeleira, os fios castanhos e fortes.

Até que, um dia, acordou cedo como todos os dias, se olhou no espelho, e percebeu que na base da orelha esquerda a pele começava a descamar, como se estivesse ressecada. Prendeu os cabelos num coque, sim, parecia uma espécie de crosta, talvez o clima seco das últimas semanas, pensou, abriu um dos potes de creme, o mais caro, e tirou de lá um pouco da substância perolada que costumava espalhar pelo rosto depois do banho. Traçou leves movimentos circulares com o anular, mas a pele, em vez de se fazer mais suave, mais maleável, pareceu-lhe ainda mais descamada. Acendeu a luz do espelho de aumento preso à parede lateral do banheiro, examinou-se com atenção, uma série de pequenas placas brancas que, inclusive, deu-se conta agora, coçavam um pouco, tentou não usar as unhas, apenas um leve toque, mas logo a coceira foi aumentando, aumentando, até tornar-se insuportável, uma reação alérgica, talvez ao creme, pareceu-lhe o mais provável. Abriu a torneira e lavou o rosto com água morna, por longo tempo, a água morna escorrendo pela face, as últimas gotas, pegou então uma das pequenas toalhas empilhadas na estante e secou-se com cuidado, pronto, agora tudo voltaria ao normal, mas, não, ao examinar-se novamente, a pele descamada pareceu-lhe ainda pior. Deslizou os dedos sobre ela, a pele cada vez mais grossa, passou levemente as unhas, e outra vez a coceira insuportável, que foi suportando e suportando até não aguentar mais. Coçou-se com força, cada vez mais força, até que, para seu horror, percebeu que a pele começava a se desprender da base da orelha, tentou parar, colocar um curativo, um esparadrapo, mas não conseguiu e, como se a impulsionasse uma energia muito mais forte do que ela, puxou a pele um pouco mais em direção à face, para seu espanto, nem uma gota de sangue, a pele se descolava feito um pergaminho, um papel de embrulho, mas não era isso o que a preocupava, o que lhe causava o mais intenso terror era que, por baixo da pele que se desprendia, o que se via era outra pele, uma pele fina, enrugada e mole, com estranhas manchas escuras. Ficou alguns instantes assim, imóvel, quase sem respirar, instantes que lhe pareceram intermináveis, e foi quando, num gesto automático, que era, mas não era, sua vontade, arrancou de uma única vez tudo o que restava, o rosto inteiro, que agora segurava com força entre os dedos, como se segurasse uma máscara.

(Talita Hoffmann/Superinteressante)

E o que viu então no espelho, para seu espanto, foi ela mesma, o seu rosto, só que devastado pelo tempo, como se de um momento ao outro tivesse envelhecido trinta, quarenta anos. E foi então que, ao contrário do que poderia esperar, sentiu-se estranhamente calma, e com essa calma fresca e nova deixou a pele antiga sobre a bancada do banheiro, e começou a maquiar o novo rosto, sem pressa, um pouco de base para disfarçar as manchas, mas sem que fosse possível disfarçá-las realmente, rímel sobre os cílios agora curtos e poucos, um lápis para realçar a linha das sobrancelhas inexistentes e batom vermelho-escuro sobre os lábios agora murchos e ladeados de pequenos vincos. Quando terminou, olhou com atenção aquele rosto desconhecido, que por algum motivo não lhe pareceu tão estranho assim. Escolheu no armário um vestido longo com pequenas flores, o único par de sandálias sem salto que tinha, um chapéu que comprara num brechó e que nunca havia usado, e saiu, sentindo que finalmente tudo fazia sentido.

Carola Saavedra é autora de Flores Azuis (finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti), Paisagem com Dromedário (vencedor do Prêmio Rachel de Queiroz) e está entre os 20 melhores jovens escritores brasileiros da Granta.

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