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Epidemia de aids no Brasil segue estável – e isso não é bom

 (Foto: Galileu)

 

O mundo tem 36,7 milhões de pessoas vivendo com HIV. Pela primeira vez, mais da metade delas — 19,5 milhões — está em tratamento. O recorde é importante porque, ao fazer a terapia antirretroviral, o risco de transmissão do vírus diminui consideravelmente. 

Os dados referentes a 2016, divulgados nesta quarta, fazem parte do mais recente relatório do UNAIDS, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/aids, que tem como meta acabar com a epidemia da aids até 2030.

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"A ciência mostra que começar o tratamento o mais cedo possível traz um benefício duplo, já que mantém pessoas que vivem com HIV saudáveis e previne as transmissões. Com isso, muitos países passaram a adotar essa medida padrão de ouro que é tratar todo mundo [que tem o vírus]", afirma Michel Sidibé, diretor executivo do UNAIDS, no relatório. 

O documento também mostra que as mortes relacionadas à aids diminuíram 48% globalmente, passando de cerca de 1,9 milhão, em 2005, para 1 milhão, em 2016. 

A região que mais demonstrou avanço foi a África Oriental e Meridional, que representa mais da metade de todas as pessoas que vivem com HIV no mundo. O continente teve queda de 42% nas mortes e 29% nas novas infecções. 

Enquanto isso, no Brasil... 
Na América Latina, sete países concentram quase 90% das novas infecções. Destas, 49% aconteceram no Brasil, o mais populoso da região, tornando-o o líder de um ranking inglório. Além disso, enquanto os novos casos de infecção caíram mais 20% em países como Colômbia, El Salvador, Nicarágua e Uruguai, o Brasil e a Argentina tiveram um ligeiro aumento de 3%.

 (Foto: UNAIDS)

 

O relatório revela ainda que, desde 2005, o número de novos casos de HIV no país variou pouco, entre 46 e 48 mil — quase a lotação máxima Arena Corinthians, em São Paulo. Para uma nação com 830 mil pessoas que já vivem com o vírus, a estabilidade não é algo bom. 

"Isso não é motivo para comemorar, porque a epidemia precisa ser findada. Falar em estabilidade quer dizer que a epidemia continua existindo", afirma o psicólogo Salvador Correa, coordenador executivo da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA). 

Disponibilizar estratégias como a PrEP pelo sistema público e o teste rápido de farmácia é uma das coisas que nos tornam referência no tratamento em aids e HIV no mundo. Desde 1989, quem vive com o vírus no país é amparado pela Declaração dos Direitos Fundamentais da Pessoa Portadora do Vírus da Aids. Já uma lei de 1996 assegura que todo brasileiro pode ter acesso ao tratamento gratuíto. Além disso, outra lei, de 2014, prevê até quatro anos qualquer ato de discriminação. Mas é preciso estar sempre alerta. 

“Às vezes o Brasil está muito à frente em relação aos outros países, às vezes não. Isso porque vão aparecendo medidas novas o tempo todo", afirma o Ricardo Vasconcelos, coordenador do projeto PrEP Brasil e infectologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. 

Homens que fazem sexo outros homens e jovens são a principal parte da população em que a epidemia tem aumentado. "Já tivemos algumas ações voltadas para estes públicos, mas são isoladas, precisamos de ações mais eficazes", diz Correa. 

"Além disso, existe um avanço muito grande em relação ao conservadorismo no país. Quando esse tipo de política ganha espaço, percebemos que a prevenção perde o fôlego."

Atitudes preconceituosas  e a ignorância — como pensar que a aids é uma "doença de gays" ou não saber diferenciar HIV de aids — contribuem para o aumento da epidemia. O Ministério da Saúde estima que 112 mil brasileiros não sabiam que têm a sorologia positiva, outros 260 mil sabem, mas não se tratam. 

Medidas do UNAIDS, como o Stigma Index, que deve ser aplicado por aqui em 2018, medem justamente como o preconceito ajuda no avanço da epidemia. Ou seja, além de remédios, a sociedade também precisa repensar a forma como percebe a doença. 

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