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Lola pela manhã

Fico esperando o grande relógio digital acima de mim marcar 5 horas. São 4:45 e os últimos minutos ficam cada vez mais compridos, como as sombras que se alongam quando o sol se põe. Faço pequenas contagens regressivas mentais para obrigar o tempo a passar. Não suporto mais esse trabalho. Felizmente, o tempo não se esquece de mim. 5:00, finalmente. Mais um dia sem acontecimentos. Sinto um alívio quente inundar meu corpo a partir da cabeça.

Antes de sair, porém, preciso checar uma última vez o sistema de segurança. Câmeras de vigilância e imagens em infravermelho me mostram que estão todos lá, dentro de suas moradas – alguns imóveis e provavelmente dormindo, outros se mexendo um pouco, o que também não é um problema. Levanto da mesa para fazer a última vistoria manual. Completo uma volta nas instalações gigantescas que ficam sob minha responsabilidade: passo por trás do campo de futebol, cruzo os cinemas vazios, observo de longe os últimos bares ainda abertos. Dou uma puxadinha nas imensas fechaduras, nas trancas, e nos cadeados que completam as travas eletrônicas. Ninguém saiu.

Pego meu casaco, puxo a minissaia para baixo e deixo a sala de vigilância um pouco antes de amanhecer. Lembro de como eram cruéis os tempos pré-cíclicos. Eu faria a caminhada para casa correndo, olhando para os lados, morrendo de medo de que alguém se espreitasse pelos cantos. Agora não. Atravesso tranquilamente os seis quarteirões ouvindo a música alta que sai dos meus fones e mantenho o olhar fixo no horizonte, que começa a se iluminar.

Abro a porta de casa e percebo que já tem gente acordada.

– Mamããããe, diz Nina assim que boto o pé em casa, pulando para que eu a pegue ainda no ar. Aperto-a com força.

– Ela acordou antes das 6h de novo?

A pergunta é para Lola, que acaba de entrar na sala. Ela pega a nossa filha no colo e vem me dar um beijo de boas-vindas. Seus cabelos pretos estão presos num coque capenga e dá para ver que ela jogou um moletom por cima da camisola, na esperança de conseguir dormir mais um pouquinho. Não deu. Aperto Lola com força também, e vou para a cozinha preparar o café.

Esse é o nosso pequeno ritual. Nosso pequeno ponto de encontro no meio de rotinas opostas. Cafés da manhã e alguns jantares. É o que temos juntas. Conto para Lola como foi meu dia – não há o que contar, sabemos ambas, mas insisto mesmo assim. Ambas sabemos também que preciso sair desse emprego, que não deveria me botar em risco, mas não podemos nos dar ao luxo. Fico olhando para a cara dela, ainda amassada de travesseiro. Faço um carinho em sua bochecha. Mesmo depois de tantos anos ainda sou grata por tê-la ao meu lado. Brinco também com Nina, que me mostra os passos de dança que aprendeu ontem na escola. Lola aproveita para começar seu longo ritual de beleza. Quando as duas estão prontas para sair, me despeço com beijos e abraços e vou, enfim, dormir.

***

Hoje o sono não foi longo. Acordo com o celular tocando e a voz da minha chefe berrando do outro lado. Mais um motim. Não deu tempo nem de bater as 12:00. Desligo conformada e saio de novo. Não fiquei quase nada em casa. Na sala de vigilância, me uno às colegas e ficamos assistindo ao combate. Para variar, foi futebol. Duas torcidas adversárias estão se matando no mesmo campo de futebol que, ainda nessa madrugada, parecia tão pacato. “Se matando” não é força de expressão. Nossas equipes já contam 17 mortos.

– Porra, é por isso que eles estão aí dentro. Bando de trogloditas, diz Sandra, minha chefe, não sem um sorrisinho de canto de boca.

Ela tem razão. Quando o Novo Ciclo começou, as primeiras líderes resolveram manter o número de homens estável em 15% da população. A ideia era usá-los para a procriação, mas preservar a liberdade dos sobreviventes. Ainda assim, os restantes não paravam de causar estragos. Mesmo em minoria, seguiram responsáveis por oito em cada dez dos crimes violentos registrados. Eram trogloditas mesmo. As chefes tentaram adequá-los aos novos tempos. Não deu certo. Eles queriam as velhas leis de volta, queriam continuar sendo maioria no Congresso e nos cargos executivos – não se conformavam em ocupar apenas uma pequena porcentagem. Não gostaram de ser preteridos em entrevistas de emprego. Odiaram receber salários menores, apesar de terem estudado menos. Não quiseram ser obrigados a tirar um ano de licença-paternidade. E o principal: se recusaram a ter seus direitos reprodutivos controlados pelo Estado. A ironia nenhum enxergou.

Por isso, decidiram retirá-los da sociedade. Os homens eram uma ameaça. Confinaram-nos em alojamentos, como este que vigio. Mas as dirigentes não foram desumanas. Deram a eles tudo de que precisavam. Além de casa, comida, segurança e saúde de alta qualidade, os campos têm campeonatos de futebol, bares com bebida barata, ringues de MMA, churrasqueiras públicas, cinemas, bibliotecas e pornografia liberada para todos. Tudo bancado pelo Estado. As primeiras gerações, que se lembravam dos tempos pré-cíclicos, chegavam a dizer que a vida dentro dos campos era melhor do que fora.

(Pâmela Martini/Superinteressante)

Os resultados apareceram imediatamente. Primeiro, foram sentidos nos índices de criminalidade. Estupro, assédio sexual, pedofilia e violência doméstica caíram para os níveis mais baixos da história – alguns praticamente deixaram de existir. Acidentes graves de trânsito viraram notícia. E mesmo os assassinatos comuns despencaram. Sem homens, o povo parou de se matar. Ainda há assaltos e corrupção, é claro, mas o dinheiro economizado em segurança pública começou a bancar com folga os alojamentos. Logo, o Novo Ciclo inspirou revoluções em outros países, que começaram a adotar modelos parecidos. Em poucos anos, guerras se tornaram raridade.

Mas não dentro dos alojamentos. É só ver agora. A briga no campo de futebol está mais sangrenta do que nunca. Olho preocupada para o relógio porque não posso perder meu jantar com Lola. Não quero emendar de novo um turno no outro. Pelas telas de vigilância, vejo que torcedores inimigos começaram a usar paus e canos para se espancar mutuamente. A nossa diretriz é não interferir, a não ser que as disputas violem a ancestral Convenção de Genebra. É uma estratégia prática de controle de população, na verdade. Já estou aborrecida por ter perdido meu dia. Mas não tem jeito, sou uma das responsáveis pela segurança do alojamento – sou uma das poucas, aliás, que tem os códigos das travas e que pode liberar o acesso para as equipes de saúde. Minha presença não é opcional. Finalmente, uma colega mais esperta tem a ideia de pedir comida. O clima melhora.

Nos primeiros anos da revolução, a maior parte das mulheres sentia falta de companhia masculina. Além de fazer visitas aos alojamentos para escolher quem seria o pai de suas filhas (aprendemos a anular os espermatozoides de cromossomo Y em poucos anos – hoje, só nascem homens quando precisamos repor as populações), muitas se envolviam com os confinados em relacionamentos poligâmicos. Com tantas mulheres a mais, homens tinham três, quatro ou até cinco namoradas. Mas, em uma ou duas gerações, a situação mudou. Hoje, são poucas as que preferem namorar confinados. Eles ainda estão lá, para a procriação e a diversão, é claro – seguem indispensáveis. Mas o romance é lésbico.

– A Lola vai bem?, pergunta Sandra educadamente, no exato momento em que dou uma mordida selvagem no meu hambúrguer.

– Hmm rmfff, respondo, acenando com a cabeça.

– Ela ainda não achou um emprego?

– Ah, você sabe. Ela tem aqueles problemas de saúde, não pode sair muito de casa. Decidimos que ela vai ficar com a Nina por enquanto.

– Sei.

Eu que sei no que Sandra está pensando. Que Lola deveria ter um emprego. Nossas antepassadas lutaram tanto por esse direito, afinal. Mas Sandra é mulher das antigas. Sou da opinião de que todo mundo deve escolher o melhor para si. Qualquer escolha.

Finalmente, a luta do lado de dentro esfria. Os combatentes resolvem voltar para casa bem quando estamos terminando o cafezinho. Em breve, nossos tanques entrarão no campo de batalha para recolher os mortos e tratar os feridos. Pelas telas, conseguimos contar pelo menos 30 corpos. Mais um dia triste.

Foi em um dia triste e parecido com hoje que eu entrei pela primeira vez nesse alojamento, há oito anos. Quarenta e cinco homens haviam se matado naquela madrugada por causa de uma briga de bar. Eu botei os pés lá dentro porque decidi ter uma filha, ainda que solo. A tristeza contaminava o ar e vi muitos homens chorando. Ainda consigo sentir o mal-estar. No entanto, um rapaz baixo e magrinho, de olhos e cabelos muito escuros, me chamou a atenção. Ele era gentil, amável e respeitoso, como agora a maior parte dos homens é. Foi um tempo bom. Fiquei uns meses frequentando seu quarto, até finalmente engravidar de Nina. Não voltei mais para o alojamento.

Depois do massacre de hoje, eu também não preciso voltar. Como fiquei de plantão durante o motim, Sandra me libera do turno da noite. Vou conseguir jantar com Lola, talvez até assistir a um filme. Precisamos comemorar. Fico tão empolgada que decido passar no mercado e caprichar na janta. Escolho um vinho, um filé e legumes. Lembro até de passar na farmácia para comprar as pílulas de Lola, que disfarçam seu corpo sem curvas e a mantêm do lado de fora do alojamento. Hoje, vou conseguir buscar minha filha na escola, passar o fim do dia com minha pequena família, conversar com Lola até de noite e adormecer ao seu lado, fazendo carinho em seus longos cabelos escuros e suas bochechas – a essa altura já ásperas de novo – até amanhecer.

Karin Hueck é escritora e editora da SUPER, autora do livro O Lado Sombrio dos Contos de Fada.

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