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Número de negros na universidade sobe, mas segue baixo

A USP aprovou na terça, dia 4, a implantação de um sistema de cotas sociais e raciais que passará a valer a partir do vestibular de 2018. 37% das 11.147 mil vagas disponíveis serão reservadas a estudantes que passaram todo o ensino médio em escolas públicas. Esse é só o primeiro passo: a parcela acima irá para 40% no processo seletivo de 2019, 45% no de 2020 e 50% no de 2021.

Dois quintos dessas vagas de escola pública serão dedicadas a negros, pardos e indígenas (PPI). Ou seja: 13,7% do total. Essa proporção reflete a composição demográfica do estado de São Paulo, em que dois quintos (37%) da população se declara preta, parda ou indígena, segundo o IBGE.

Isso significa que, até 2021, pelo menos um quinto (18,5%) dos calouros da maior e melhor universidade do Brasil serão minorias raciais e étnicas que estudaram o ensino médio todo em escolas públicas. A proporção tende a ser maior na prática por não levar em consideração a (pequena) parcela desses alunos que já passam pelo vestibular sem o auxílio de cotas. Em 2015, o total de negros ingressantes na USP foi de 391 alunos – 3,5% do total. Em 2016 o número caiu para 328, ou 3,2% dos bixos. 

A medida é mais um passo de uma série de iniciativas do tipo, que não funcionaram tão bem assim. Em 2006, por meio do programa de inclusão social Inclusp, a USP passou a dar 15% de bônus nas notas das provas de candidatos oriundos de escolas públicas – 20% se eles se declarassem negros, pardos ou indígenas. A parcela de calouros de menor renda também deveria ter aumentado quando parte das vagas da universidade foram oferecidas no Sistema de Seleção Unificado, o SISU, em 2016. Mas a nota de corte exigida era tão alta que, na primeira edição, 11 cursos não encontraram ninguém apto a preencher suas salas de aula – 10,4% das vagas oferecidas a candidatos do ENEM ficaram vazias.

A medida adotada ontem busca reparar uma série de distorções históricas no acesso ao ensino superior. Uma das mais notáveis é que estudantes de baixa renda que fizeram os ensinos fundamental e médio em colégios públicos em geral vão para universidades particulares, enquanto quem passou a adolescência em colégios particulares, em que a qualidade do ensino em geral é maior, consegue passar pelo vestibular e vai para universidades públicas reconhecidas.

De acordo com um cálculo da Folha de São Paulo, a proporção de jovens negros e pardos no ensino superior pulou de 21% para 35% entre 2001 e 2009, uma inclusão impulsionada principalmente pelo aumento no número de universidades particulares de baixo custo. Nesse período, nas universidades públicas, o aumento de matriculados não-brancos foi de 314 mil para 530 mil, uma variação de 69%. Já no setor privado, o mesmo número foi de 447 mil a 1,6 milhão – crescimento de 264%.

Em 2012, essa tendência foi notada pelos ingleses da The Economist“Nenhuma das instituições com fins lucrativos no Brasil têm o prestígio ou os recursos das melhores públicas (…) Algumas são pouco mais que fábricas de diplomas de qualidade duvidosa. Mas uma qualificação de uma dessas líderes de mercado pode dobrar o salário de entrada de um jovem.”

Desde então, a situação melhorou. Em 2015, 49% dos alunos de universidades federais já vinham de escolas públicas – a USP, com a medida anunciada ontem, dá seu passo mais importante até agora para alcançar números parecidos. Segundo o IBGE, a proporção de alunos de faculdades públicas pertencentes ao extrato mais pobre da população (renda per capita de até R$ 192), era 1,2% em 2004, e chegou a 7,6%  em 2014. 

Mesmo assim, menos de 20% do total de jovens brasileiros que têm entre 18 e 24 anos estão na faculdade. Contando apenas os jovens negros, só 12,8% cursam ensino superior. Entre os jovens brancos a proporção é bem maior: 26,5%. 

 

 

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