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Com edição de DNA, cientistas curam doença cardíaca em embriões

Pela primeira vez em solo norte-americano, cientistas usaram a técnica de edição genética CRISPR-Cas9 para modificar embriões humanos. O objetivo era corrigir uma mutação no gene MYBPC3, responsável por uma doença chamada cardiomiopatia hipertrófica.

Os embriões serão descartados: a legislação da maior parte dos países proíbe a gestação de bebês geneticamente modificados. Mas o sucesso no laboratório é um marco histórico para a medicina.

Para gerar os embriões usados no experimento, a equipe de Hong Ma, da Universidade de Ciência e Saúde de Oregon, nos EUA, uniu óvulos saudáveis aos espermatozoides de um homem que tem a doença.

Em uma situação normal, com pai doente e mãe saudável, 50% das crianças dessa relação nasceriam com o problema no coração. Aplicando a técnica de edição de DNA o mais cedo possível, durante a fertilização, os cientistas conseguiram curar 42 dos 58 embriões. Caso essas gestações fossem levadas para frente, portanto, 72% dos bebês nasceriam saudáveis, e só 28% teriam a doença – uma queda de 22%. Os resultados foram publicados na Nature na última quarta (2).

cardiomiopatia hipertrófica afeta uma em cada 500 pessoas, e é a principal causa de morte repentina entre atletas jovens.

“Esses resultados são muito bons, é um grande avanço”, afirmou ao The Guardian Richard Hynes, geneticista do MIT que não participou do estudo. “Isso traz a técnica de edição genética mais perto dos testes clínicos, mas ainda há muito trabalho a ser feito.”

Os autores do estudo concordam. “Ainda há barreiras regulatórias demais nos EUA para sequer começar a considerar uma gestação. O público terá muito tempo para pensar se isso deve mesmo ocorrer”, afirmou Alta Charo ao New York Times. “Qualquer experimento que vise uma gravidez precisaria de aprovação da FDA [equivalente da Anvisa], e a agência não é autorizada a receber pedidos desse tipo.”

O que é CRISPr-Cas9?

CRISPR-Cas9, grosso modo, é o nome de uma dupla de proteínas. Elas funcionam assim: quando uma bactéria é atacada por um vírus e sobrevive para contar a história, ela guarda pequenos trechos do código genético dele para identificá-lo no futuro. Precaução, como andar por aí com a foto de um serial killer no bolso para reconhecê-lo na rua.

Se essa bactéria for ameaçada pelo mesmo vírus no futuro, ela libera uma proteína que picota o DNA do invasor como uma tesoura.

A medicina percebeu que esse método de identificação e ataque pode ser usado para cortar qualquer molécula de DNA, não só as de vírus perigosos: basta “programar” a proteína para caçar o gene problemático, e então substituir o trecho com a mutação por uma versão corrigida – um “ctrl-c + ctrl-v” dentro do núcleo das células.

Além das óbvias objeções éticas e religiosas, a técnica enfrenta dois problemas práticos. Um é garantir que todas as células do organismo que está passando pela terapia sejam modificadas uniformemente – não adianta curar só metade do embrião.

Outro é evitar efeitos colaterais. Uma molécula de DNA é feita de longas sequências de bases nitrogenadas – as famosas letras A, T, C e G. Se um gene com uma mutação tiver uma sequência de letras muito parecida com a de um gene saudável, a proteína pode errar o alvo, causando alterações imprevisíveis e potencialmente perigosas no material genético.

Os cientistas conseguiram evitar o segundo problema – de longe o mais perigoso – no estudo da última quarta-feira. Afinal, um tratamento que tem chances de não funcionar é algo bastante aceitável, mas um que causa doenças piores do que as que está tentando resolver, não.

Antes da equipe de Oregon, médicos de universidades chinesas já haviam modificado embriões humanos usando CRISPR-Cas9 – mas todos os experimentos, em maior ou menor escala, acabaram tropeçando em um dos dois problemas acima.

Além disso, com o aperfeiçoamento da técnica, novos problemas estão surgindo. Um deles é obrigar as células a usarem o parâmetro de correção fornecido pelos cientistas para fazer a “manutenção” no gene que está com problemas.

No experimento norte-americano, dos 42 embriões curados, 41 ignoraram as bases nitrogenadas fornecidas pelos cientistas, e usaram os genes das células maternas saudáveis para corrigir o problema – um caminho diferente para alcançar a mesma solução, em que a célula percebe que há algo errado graças à intervenção médica, mas resolve o problema por conta própria.

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