Blade Runner 2049: tudo o que você precisa saber sobre o filme
Em 2011, quando os produtores Broderick Johnson e Andrew Kosove perguntaram a Ridley Scott se ele havia interesse em voltar a trabalhar no universo do clássico Blade Runner, o Caçador de Andróides, de 1982, o diretor respondeu: "Eu estive esperando por uma reunião como essa por 35 anos".
Depois que os produtores passaram quase ano correndo atrás dos direitos da continuação do filme, a aceitação de Scott veio como um prêmio.
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Empolgado, o diretor não demorou para mandar um "oi, sumido" ao antigo colega Hampton Fancher, um dos responsáveis pelo roteiro do primeiro filme, perguntando se ele estaria disponível para reviver o replicante Rick Deckard. "Eu falei na hora: 'Finalmente você atingiu o fundo do poço'", brincou Fancher, na revista Wired. Por coincidência, o roteirista já estava escrevendo um conto que serviu como base para o novo roteiro.
Ridley Scott, no entanto, assumiu a produção e deixou claro que não poderia ficar com a direção do longa, uma vez que já estava envolvido em projetos como Alien: Covenant. Foi assim que o diretor Denis Villeneuve surgiu, carregando nos bolsos sucessos como A Chegada e Sicario: Terra de Ninguém.
"Blade Runner sempre é colocado no gênero de ficçao científica, mas achamos que ele está mais para um filme noir", explicou o produtor Kosove à Wired. "E se você olhar para Os Supeitos e Sicário vai ver que não existe ninguém fazendo um noir melhor do que o Denis."
Juntando nomes de peso como Harrison Ford, Ryan Gosling e Robin Write no elenco, surgiu o esperadíssimo Blade Runner 2049.
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Revivendo o clima melancólico e claustrofóbico da Los Angeles distópica do primeiro filme, o longa é uma homenagem respeitável ao clássico e ao mesmo tempo uma porta aberta para um novo e impressionante universo. Não à toa, já foi definido como "de tirar o fôlego" e "obra de arte" pela crítica internacional.
Expectativa X Realidade
Sem entregar muito sobre a trama do filme (tudo pode ser considerado spoiler), é possível dizer que os conflitos existenciais e as incertezas dos replicantes, humanos criados a partir de bioengenharia genética, estão lá.
Parte da história trata das dúvidas acerca da realidade que cerca os personagens. O que é falso e o que verdadeiro em uma sociedade em que memórias podem ser implantadas em replicantes que pouco se diferenciam dos seres humanos "de verdade"?
O modo como construímos a realidade pode ser explicado pela psicologia narrativa. “Você imagina que a vida começa em um ponto e termina em outro, com alguns obstáculos e clímax pela estrada. Você precisa de um narrador na sua cabeça que dê sentido para a confusão de pensamentos gerada pela sua gigante rede de neurônios. Você procura por causas e efeitos que vão explicar o mundo de um modo que beneficie sua autoimagem”, explica David McRaney no livro You Are Now Less Dumb.
Para os psicólogos, a narrativa é tão importante para a construção da realidade que sem ela não existiria um “eu”. Essas narrativas são formadas pelas memórias que colecionamos ao longo da vida. A questão é: se não temos memória ou se descobrimos que vivemos com memórias falsas que foram implantas em nosso cérebro, como podemos garantir que a nossa existência é real?
É isso que transforma Balde Runner 2049 numa ficção científica diferente das outras. O conflito não está no espaço, para além das estrelas, mas dentro dos próprios personagens.
O passado sempre volta para mais um trago
A ideia, claro, já estava no clássico de 1982. "Isso fica evidente quando se compara o longa com as maiores ficções científicas lançadas no cinema na época: Star Wars, Alien, E.T - O Extraterrestre. Nesses filmes, o foco está no senso de aventura, ação ou terror", explica Max Valarezo, criador do canal Entre Planos.
"Já Blade Runner tem um tom narrativo muito diferente. É uma história melancólica, lenta e que utiliza conceitos de ficção científica para abordar explicitamente temáticas profundas, como a natureza da essência humana e a dualidade entre vida e morte."
O visual impactante também é essencial para o clima do filme. Se como afirma Valarezo, o filme de 1982 mostra um mundo "extremamente vivo e convincente, mas também diferente o bastante da nossa realidade para nos deixar fascinados", o novo longa não fica atrás.
A direção fotográfica é certamente um ponto de convergência entre as duas obras. Na primeira, Valarezo destaca as estratégias clássicas dos filmes noir de 1940 e 1950. "Dá para ver isso perfeitamente, por exemplo, nas cenas em ambientes fechados. Nelas, os personagens estão mergulhados na escuridão. As sombras dominam a tela, em fortíssimo contraste com a luz que entra pela janela", diz.
Esse trabalho com luz e cor também ressurge no novo longa e rende efeitos impressionantes, principalmente com a colocaração amarela, em cenas que usam ângulos geométricos nas quais o amarelo está sempre em um movimento lento, mas nunca parado.
Philip K Dick está vivo e vocês estão mortos
O universo de Blade Runner foi baseado no clássico Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Phlip K. Dick, que completa 50 anos em 2018. Para celebrar a data, neste ano, a obra ganhou uma nova versão da Editora Aleph, com ilustrações e informações que buscam compreender melhor a obra.
Apesar de ter sofrido um AVC e morrido pouco antes da estreia da adaptação para o cinema, o autor estava feliz com o rumo da produção. "Acho que Blade Runner irá revolucionar nossos conceitos do que a ficção científica é, e inclusive do que pode ser", escreveu ele ao produtor Jeff Walker, na carta que consta na edição especial do livro.
O curioso é que o termo "blade runner" (que define os caçadores que "aposentam" os androides) não consta no livro. Segundo o jornalista Ronaldo Bressane, que traduziu a obra, a expressão foi tirada de uma história do escritor beat William S. Burroughs. "Ridleu Scott achava o título original de PKD obscuro demais para um filme e pediu aos roteiristas um nome mais sexy para dar uma aura ao trabalho de Deckard", escreveu Bressane no pósfacio.
Apesar de aprovar o longa, PKD preferiu manter distância da produção. Em sua última entrevista, à revista The Twilight Zone Magazine, o autor explica por que preferiu trabalhar no novo livro The Transmigration of Timothy Archer em vez do roteiro do filme:
"O pessoal do Blade Runner estava fazendo uma tremenda pressão sobre nós para que realizássemos essa novelização [do filme], ou para que permitíssemos que outro escritor fizesse isso, como, por exemplo, Alan Dean Foster. Mas, para nós, o original era um bom livro. Além disso, eu não queria escrever o que chamei de uma adaptação barata."
Tido como um dos grandes mestres da ficção científica, PKD também emprestou sua mente brilhante para adaptações como O Homem Duplo, Minority Report, O Vingador do Futuro e a série O Homem do Castelo Alto, da Amazon.
Sua preocupação em nos fazer questionar tudo o que nos cerca era obsessiva. PKD dizia que "a realidade é que aquilo que, quando você para de acreditar, não desaparece". Se isso for mesmo verdade, suas obras estarão sempre por aí explodindo a mente dos leitores.
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